foto by Paula GoldmamÉtica, sexo e fotos

 após ser lesado no seu direito a ter arquivo de material que co-produziu, Rui Takeguma faz algumas reflexões numa carta direcionada a sua filha de 3 anos, leia e comente...


   "O Universo não é uma idéia minha.

A minha idéia de Universo é que é uma idéia minha.

A noite não anoitece pelos  meus olhos,

A minha idéia  da noite é que anoitece por meus olhos.

Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos

A noite anoitece concretamente

E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso."

Fernando Pessoa

  

  

Ética, sexo e fotos

Cecília,

             Novamente uso a fantasia de escrever pra você; fantasia que toquei pela primeira vez ao me separar de Roberto Freire num contexto de fofocas e mentiras. (http://somaie.vila.bol.com.br/cartapraceci.html)

Escrevi aquele texto antes de você nascer e publiquei na internet quando você tinha quase 2 anos.

            Agora, com  3 anos e 7 meses, você fala, pergunta e conversa comigo. Mas como ainda não tem idade pra entender certas questões, vou desabafar sacanagens éticas que sofri recentemente, tanto para te mostrar futuramente como penso hoje, como para divulgar no meu site de fotos a quem queira entender minha visão ÉTICA sobre FOTOS e SEXO.

             Vivemos num momento extremamente hipócrita de nossa sociedade. Seja hipocrisias propositais, onde a pessoa que a pratica tem a consciência e a justifica pra si mesmo; e hipocrisias outras, que atingem a maior parte das pessoas e devem variar da pura ingenuidade até medos velados. Enfatizo que tudo que digo é minha observação da realidade, e nesse texto pra você, Cecí, dou nome a hipocrisias, como percebo a conduta corporal, o comportamento de pessoas que circulam na sociedade.

            Como exemplo de hipocrisia, cito que durante a escrita do parágrafo acima, o José Carlos, meu locador, veio cobrar a conta de água e luz. Ao abrir a porta, me confundi ao entender o que ele queria, e obviamente percebeu nos meus olhos vermelhos, na confusão e na maré, que eu tinha fumado. Ao voltar pra pegar o dinheiro, ele falou algo de uma forma que percebi que ele percebeu que eu tinha fumado. Mas, como a maconha ainda é ilegal (espero que quando você leia esse texto, isso já tenha mudado), não se fala diretamente sobre isso. Isso é um exemplo que chamo de hipocrisia.

            Quando você tiver lendo esse texto, precisará me contextualizar a um momento em que faço a transição da Biologia do Conhecer na prática da Somaiê. Em 2002 conheci o Maturana na teoria, e em 2004 comecei a por em prática na Somaiê e Te&So; só ontem de manhã fiz a primeira cadeira quente aplicando seus conceitos. E esse texto é paralelo ao Manifesto da Somaiê de 2006, em produção e não sei qual fica pronto primeiro, se o manifesto ou esse texto pra você (esse acabou antes).

            Assim, você já saberá que a hipocrisia em si não existe, como é uma sensação da minha observação, depende de cada situação como ela reverberará no restante de meu viver. Assim, conviver com essas micro-hipocrisias cotidianas é inevitável a qualquer observador do viver no social humano atual. E cada um deve lidar com elas na sua subjetividade, de formas variadas. Um exemplo geral é o dos que pela formação religiosa sentem culpa e procuram aliviá-la voltando-se para a própria religião. Na minha formação religiosa, que procuro não transmitir a você, foi o catolicismo a ensinar que coisas que hoje acho naturais, saudáveis e legítimas, eram encaradas como errado, pecado, gerando culpa e necessidade de penitência. Da religiosidade do resto da família, você que terá de aprender a se defender. Como procuro te mostrar que qualquer comportamento é legítimo para aquele que o produz, você descobrirá sua forma de lidar com a religiosidade e religiões que nos cercam.

            Outro exemplo de hipocrisia é o da política institucionalizada. Quando você nasceu, foi eleito o primeiro presidente da república sem curso acadêmico, o Lula do Partido dos Trabalhadores. Era uma promessa de mudança, comprometendo-se não só com a população mais humilde, mas com um governo de ética - sem corrupção. Claro que o discurso é hipócrita, e como anarquista consciente sei que a corrupção faz parte da estrutura do sistema hierárquico capitalista. Qualquer pessoa com uma radicalidade ética não suporta a hipocrisia institucionalizada e não conseguiria ser político profissional. Mas o explicitar público do “mensalão” mostrou como o PT é igual a qualquer outro Partido que alcance o poder. Pois no Poder, ou há uma revolução ou somente evolução.

            Com a adesão à política neoliberal internacional, o PT optou por uma evolução do sistema e ao abusar da corrupção deu de encontro com alguns egos, como um tal de Roberto Jefferson. Isso aconteceu, no ano passado, a merda veio à merda, ou mais especificamente, a lama veio à mídia.

            Mas Lula é só o exemplo maior de uma classe jurídica que se diferencia de nós. Pois se a lei é para todos, a justiça não o é. Mantêm-se estruturas arcaicas que evoluíram sem revolucionar: como a escravidão negra nos séculos passados, em que havia o homem branco muito diferenciado do negro, que nem gente era considerado. Hoje mudam-se as cores (pouco mudam, pois os negros continuam sendo mais afetados), mas a estrutura piramidal se mantém, e pior, com a base sempre aumentando. O pobre e humilde que às vezes rouba pra comer, é preso e sofre os rigores da lei. Quem tem condições de pagar bons advogados, menos rigores. Se é político eleito, possui uma impunidade legal que aproxima esta casta à dos brancos que compactuavam com a escravidão. São formas de observar a realidade e como você terá uma carga muito maior de visões diferentes e opostas as minhas, solto o verbo de opiniões e pensamentos que me passam enquanto não chego ao propósito desse texto.

            Talvez seja até por isso que transformei esse texto em uma carta e depoimento pessoal de pai pra filha. Como cito nomes de pessoas misturado a percepções minhas que pretendo publicar, deixo claro que, onde publicar, deixo o direito de que outros coloquem suas observações dessa realidade que vivencio. E se alguém citado, discordar do que falo, que faça sua versão que publico junto. Seja o Lula, Roberto Jefferson, José Carlos ou outros nomes citados ou referenciados nessa carta.

           

            Comecei falando em hipocrisias, pra levantar que qualquer comportamento ético é baseado em premissas emocionais, isso é, nosso racional justifica nossas ações e comportamentos, mas está dentro do próprio emocionar. Mas temos a sensação que seguimos com uma ética controlada pela razão. Pela educação que procuro lhe dar cotidianamente, vou mostrar um outro caminho de pensar. Quero descrever uma situação que envolve meu contexto, nesse ano, nesse mês e nesse dia: comecei a escrever esse texto na segunda-feira e agora, já passei 44 minutos do dia de meu aniversário.

            Chego aos 37 anos, e você aos 3.7. Talvez por isso escrevo tanto hoje, como forma de pontuar um momento do viver com texto, carta e manifesto. Formas diferentes do congelar da imagem fotográfica, ou da imagem em movimento e áudio. A forma de texto é uma forma de congelar idéias e direções. Conseqüência talvez de organizar idéias e, com os erros, descobrir formas outras de atuação.

             A Ética do meu viver segue os altos e baixos do me emocionar, das minhas disposições corporais a cada momento. Isso é meu e de qualquer humano. Vamos a um exemplo, que queiro deixar registrado pra você, minha Cecí, que mistura um pouco das minhas atrapalhadas buscas por uma mãe para seus futuros irmãos, isso é, na minha deriva afetiva sexual, com minha visão ética sobre imagens e sexualidade.    

             Conheci uma cineasta no mês passado. Coisas de atração sensual que inevitavelmente nos aproximou sexualmente. Como você sabe que gosto de fotografar tudo que gosto, encontrei nessa cineasta uma companheira de cama, foto e vídeo. Resumindo nosso pequeno affair, mas intenso pois chegou a freqüentar nossas duas casas atuais, a da Lapa e a da Maromba, e dormir e brincar com você, Cecí; fizemos fotografias em minha máquina e na máquina digital dela; e fizemos videozinhos nessa máquina digital e uma curta filmagem em VHS-C. Nada de especial, registros e brincadeiras de voyeur que todo fotógrafo é.

            Minha educação moral me faz questionar escrever essa carta pra você, Cecí, pois que assunto é esse pra um pai falar pra uma criança de 3 anos?? Mas percebo o ridículo dessa moralidade ao mudar o contexto do observador pra pensar em você começando sua sexualidade, daqui a uns 10 a 15 anos, acho. Quando comecei a praticar sexo no meu viver, e depois ao misturar com meu olhar fotográfico, só havia fotografia química, ao menos de forma acessível ao meu alcance. Mesmo hoje em dia, opto em ficar à margem de ter máquina digital, por me satisfazer com minha FM2. Mas envolve a exposição ao laboratório fotográfico e ao operador que vai ver essas fotos além dos envolvidos na questão. Hoje em dia, a geração que inicia-se no sexo e tem o prazer do registro fotográfico, tem o fácil e barato acesso à tecnologia digital, que produz imagens muito próximas das químicas, mas de uma forma digital, não analógica. Assim, possibilita que ninguém mais veja a imagem além do dono da máquina e seus/suas parceiros/as, enfim nenhum terceiro precisa ver a imagem. Como será a tecnologia de registro de imagens quando você viver sua sexualidade?? Não consigo e nem quero imaginar, ao menos agora, pois estarei vivendo elas também, espero...

            Assim falo de como é hoje, pra mostrar minha visão ética nessa área, a do arquivo e captura de imagens. Nunca parei pra escrever sobre o assunto, mas os conflitos com a cineasta e fotógrafa me despertaram uma emoção de raiva e conflito que me faz te escrever e inclusive acrescentar uma frase em meu site de fotografias. O que sempre achei óbvio no meu site de fotografias mas, como vivemos numa sociedade hipócrita se precisam manter certas atitudes “politicamente corretas”:  vou colocar um texto explicitando que quem se descobrir em alguma foto que fotografei e publiquei, e se sinta de alguma forma constrangido ou que ofenda sua imagem, que me avise que a retirarei da internet. Coisa óbvia, mas você verá, Cecí, que depois dessa relação conflituosa, acho melhor explicitar essa obviedade para as pessoas que não conseguem ver o óbvio se não está na escrita, nas palavras. E, de fato, uma das fotos que publiquei em setembro do ano passado, a pessoa viu e pediu que retirasse e o fiz em seguida, e continuo com ótima relação com a pessoa, episódio anterior ao colocar a frase.

            Eu fotografo desde que meu pai, me deu uma máquina fotográfica. Era criança, mas depois foi crescendo meu interesse, culminando em ganhar minha primeira FM2 durante a arquitetura. Daí, não larguei mais. Tenho uma média de fotografar um filme de 36 fotos por semana, nos últimos 20 anos. E arquivo todos os negativos (alguns APS). Você sabe pelas fotos que bato de você, não é princesa??

            Somente há 3 anos atrás criei o projeto de me organizar e publicar na internet as fotos que achasse esteticamente válidas de se divulgar. Nasceu o site UmaFotoPorDia, que está bem desatualizado, mas já passou de 1000 fotos. No decorrer dos meses foi aumentando minha ousadia de exposição sexual, mas coloco fotos que muitas mentalidades, acharão pornográficas na sua observação. Há fotos de pessoas que nunca mais tive contato e outras que nunca mais terei. Fotos de pessoas que nem conheço, e de temas bem variados. Quando comecei a colocar as fotos que envolvem sexualidade, procurei algumas que não permitissem o reconhecimento da pessoa. E as parceiras atuais, quando aparece uma foto muito boa, eu pergunto pra ela se autoriza. Já tive respostas negativas e respostas positivas e sempre as levei em conta.

            Com a cineasta ocorreu algo que considero o oposto da minha ética em relação a como se comportar com ex-parceiros sexuais. Na vida sexual acontece a aceitação do outro; há o amor da aceitação corporal do outro, se entregar ao outro corpo o seu corpo. Logicamente no momento que há a aceitação corporal, durante o período que os amantes mantêm a relação, há a legitimação do outro, o amor. Depois que a relação acaba, as disposições corporais mudam, do amor, da aceitação, podem nascer outras emoções, como a competição e hierarquia.

            Com a cineasta, houve uma coincidência de fazermos, cada um, fotos e filmagem, eu analogicamente e ela digitalmente. Depois que fizemos as primeiras fotos na minha FM2, ela usou da justificativa de ser filha de político e já ter sofrido sacanagens nessa área de registro de imagens sexuais, pra levar meu filme a revelar. Fizemos a filmagem em VHS-C. Quando ela pegou a fita pra levar junto do filme, ainda levantei o aspecto ético da situação: que se ela não confiasse em mim, que em vez dela levar a fita, que apagássemos o conteúdo; obviamente ao levar a fita e filme ela ficou numa posição de superioridade total, fiquei sem a possibilidade de ver as fotos, pois necessitava da revelação química e sem a possibilidade de assistir a filmagem, pois ela acabou levando, falando que faria uma edição.

            Dias depois, viajamos juntos para Maromba. Ela me trouxe um super-copião de fotos e não me trouxe o negativo. Cobrei a devolução do negativo e ela postergou, fizemos mais filmagens e imagens digitais na máquina dela. Chegou a dar problema no cartão de memória, tal a quantidade que fizemos. Nada que a tecnologia digital não possa recuperar, já que não foi um dano físico no cartão e sim, de leitura das informações.

            Até aí normal, Cecília. Depois desse momento, ela faz uma viagem rápida à Espanha, e quando volta já me trocou por outro ou outra. Curioso como as relações hoje em dia são fast-food’s, e eu ainda prefiro relações mais longas; mas independente do meu gosto, como em qualquer relação, quando um não quer mais continuar, acaba a relação. Acaba a relação sexual, acaba a relação de aceitação do corpo do outro. Mas, no meu caso, aceito o desinteresse sexual do outro por mim, mas procuro manter a aceitação do outro como legítimo pra mim, procuro manter uma boa relação com ex-amantes, ex-namoradas. Me mantenho na emoção do amor, onde aceito o outro no social. Acabou o sexo, podemos construir uma amizade. Mas para isso quis resolver as pendências de arquivo de material. Ela está com TODO o material, e assim que ela me mandou um email dizendo que não mais queria ficar comigo, pedi o meu material de volta (negativo e VHS-C) e cópia do material digital.

            Daí, a cineasta mostrou seu comportamento com ex-amantes (a menos comigo foi assim): saiu da emoção do amor e passou à emoção da desconfiança, da hierarquia; saiu do social e passou a um nível político de negociações. Cheguei a pontuar essa pretensa superioridade dela, ao me rotular uma desconfiança, quando muito pelo contrário, ela só tinha provas da minha confiança total. Mostrou-se usar da posição superior em relação a ter TODO o arquivo com ela (analógico e digital), e de usar um racional influenciado por esse emocionar de superioridade, tentando desconfiar de mim de uma maneira burra, pra não chamar de paranóica. A frente explico porque desconfiança burra, ilógica para mim.

            Quando ela tirou o bode expiatório de ser filha de político, que não tinha medo por essa situação (mostrando como foi mentira esse argumento para levar meus materiais embora), mantivemos uma relação pelos recados/scraps do Orkut de uma forma online, pois comecei a escrever uma série de recados desmascarando sua má fé, e ameaçando ir à delegacia e fazer um B.O. contra seu roubo do meu patrimônio (os negativos e a VHS-C) e contra o roubo de imagens, a minha filmagem e os registros digitais que ela fez. (isso durou poucas horas, pois estava online e depois que eu escrevia ela apagava, e depois bloqueou meus scraps). Houveram ligações telefônicas dela me pontuando essa lógica: ela mandava segundo as premissas dela, pedir confiança sem dar confiança, e eu na minha, ter dado confiança e exigir o mínimo que acho direito: cópia de TUDO que fizemos juntos e meus negativos originais. Mas não adiantou, até ontem ela manteve sua posição inflexível de superioridade; tentei fazer acordo e retirar a exposição pública de que ela me roubou, mas não deu certo, veja a contra proposta dela: só ela ficar com o arquivo digital, só ela poder ter copiado minha filmagem e me daria o “direito” de somente assistir , ainda nesse acordo dela, me devolveria meu negativo. Aqui ela, segue a lógica dela: racionaliza que apagará tudo e nem ela ficará com arquivo, como se não tivesse havido o momento em que sugeri que apagasse a filmagem ou levasse a fita e somente ali haveria a possibilidade de garantir entre duas pessoas que desconfiem, a possibilidade de apagar o arquivo. Quando ela levou a fita e me diz, "nem eu vou ficar com cópia da filmagem em VHS-C", ela parece esquecer o contexto de desconfiança que ELA gerou ao me negar as cópias, mantendo uma proposta impossível de se aceitar, uma posição insustentável, ela me diz, numa meta-linguagem, “confie em mim, não vou ficar com cópia, mas não confio em você, pois não pode ficar com cópia”...ou ainda, "só eu posso desconfiar de você, e você não pode desconfiar de mim". Sem falar que na proposta dela, não há o compromisso de quando recuperar o material digital, me passar cópia.

            Desisti do diálogo com a cineasta, dessa novela mexicana, que aconteceu com vários emails mandados. Ela chegou a convocar o irmão que é advogado pra tentar me convencer e ameaçar, dizendo que ela tem o direito de manter essa posição de superioridade em relação ao arquivo das imagens e filmagens e que se houvesse B.O., eu que me prejudicaria por difamá-la... INVERSÃO TOTAL, eu sou a vítima de uma ladra de imagens e fui ameaçado de prisão por denunciar seu roubo de imagens e filmagens. Veja que não há nada de sexual nesta novelinha, isso só trata de como ex-amantes se responsabilizam por seus arquivos de foto e vídeo.

            Na última mensagem, ela ainda tenta me difamar dizendo que eu não poderia usar suas imagens sem autorização, como se isso tivesse acontecido antes comigo. Se ela já teve problemas com outras pessoas, ou não, isso não pode ser levado na relação comigo, não na forma como foi se desenvolvendo. Como disse, ela podia parar de registrar antes, que depois querer destruir o que fez, sem deixar o parceiro participar da decisão de igual pra igual. Querer apagar o passado de forma stalinista, autoritária, vai funcionar comigo, pois fiquei sem o arquivo em vídeo e nada do digital, mas exponho aqui a minha indignação para que, quem queira, também que siga o exemplo. Pelo menos você Cecí, verá que ao assumir suas hipocrisias, descobrimos os jogos de poder por detrás, e assim aos poucos, vamos construir uma sociedade em que a hipocrisia será exceção e não a regra. E voltando na lógica, que chamei de desconfiança burra, pois se tenho um site em que exponho minha pessoa, todas as fotos publicadas tem escrito “foto: Rui Takeguma” - quem seria burro de publicar dessa forma material, fotos que podem até ser consideradas pornográficas, sem autorização?? Somente se poderia publicar se escondendo e ocultando sua real identidade. Situação medíocre que deve acontecer com ex-amantes, onde um, por má-fé, publica algo sem a autorização do outro mas, nesse caso, o autor da exposição indébita se oculta. E nesse caso, potencialmente qualquer um dos dois participantes do arquivo de material pode fazer com o outro parceiro. E até usando uma lógica linear, como eu não tenho pudores de mostrar as fotos que hoje compõe meu site, 54 fotos de AMOR & SEXO, ela que se tivesse vontade de se expor o faria de maneira hipócrita, escondida, e dessa forma, eu teria muito mais motivos pra desconfiar que ela usasse dessa forma o arquivo que produzimos. Curioso como terminou essa situação: eu potencialmente até poderia fazer isso com as mini-cópias que ela me entregou do meu negativo; a cineasta, fotógrafa, filha de político, pode potencialmente publicar não só essas fotos, pois ficou com meu negativo, como ainda ficará com imagens digitais, e filmagens digitais e analógicas, que nem assisti.      

            Enfim, depois que a cineasta não mais quis fazer sexo comigo ela me trata com superioridade hierárquica e desconfiança injustificada. Isso é a ética sendo conduzida pelo emocionar, aplicada em um arquivo de imagens e filmagens sexuais, mas que seria a mesma mediocridade com qualquer tipo de imagem ou filmagem pois, como falei, não tive problemas sexuais com ela, e sim problemas de roubo de arquivo pessoal. Tinha que ter uma primeira vez, depois de 20 anos registrando fotos, ser roubado em um negativo, justamente por uma fotógrafa...

            Desde que comecei tardiamente minha vida afetiva, aprendi a criar um sistema de que em crises na relação, procuro inverter a posição, o gênero, para tentar ver a situação pela observação do outro. Assim, quando sou traído, tento me colocar na posição de quem me traiu e ver seu contexto. E na maior parte das vezes o que observo com a traição, é uma tentativa da parceira simplesmente viver seu amor; coisa que lembro dos momentos que também busquei meu amor, mas para a companheira isso se transforma em traição.

            Tentando inverter essa situação, o que sofri com essa cineasta, é como se alguém que viveu esse momento de sexo e registro de imagens comigo chegasse pra mim e eu negasse o direito da pessoa ter acesso ao material. Acho isso de uma mediocridade tremenda, e quando sofri estar numa posição de inferioridade que nunca produzi a ninguém, fiquei irado. Acho que no primeiro momento exagerei na minha reação, mas isso faz parte da minha ontogenia, das neuroses que adquiri no viver e que busco, hoje, me terapeutizar fazendo Somaiê e capoeira angola, permanentemente. Mas é isso Cecília, são dois exemplos de comportamento, cabe a você verificar qual se identifica mais para seu viver. No meu ver o direito ao acesso e arquivo do material produzido, deve ser acessível a ambos os parceiros: assim como o sexo precisou de 2, os 2 tem direito a ver e guardar o que produziram. A questão de exposição pública, é outra área, e não é o caso desse conflito com essa cineasta; pois com ela, nem pensei e nem pedi autorização pra isso, e muito pelo contrário, desde o início, quando me disse que não podia se expor, desencanei dessa idéia e nos fotografamos/filmamos pelo prazer em si de fazê-lo, o brincar...

            Mesmo tendo sofrido essa sacanagem política sobre a bela sacanagem corporal, mantenho meu raciocinar sobre essa questão. Não só no sexo, acredito na socialização das imagens e informações. Não acredito em direito autoral como o sistema o aplica no capitalismo, acredito no direito autoral do copyleft, onde, não se lucrando em cima, o direito à informação é livre. Por isso publico minhas imagens, para quem quiser copiar e fazer o uso que desejar. Acho também ético se for pra produzir algo que me consultem; se houver lucro, que eu tenha direito a uma parte. Mas é como acho, e ao manter no ar, há a possibilidade de alguém usar as fotos e lucrar sem compartilhar. Aí é minha opção pelo risco.

            Quando pensei em fazer o B.O. e denunciar o roubo de imagem, pensei que isso ao menos (como troco de eu ficar sem o direito de ter o que fizemos juntos) levasse ela a ter uma nova atitude com novos parceiros. Acho que se ela desconfia tanto de quem ela se entrega facilmente a sexualidade, deveria não registrar em foto e vídeo. Ou procurar pessoas que se submetam a essa condição inferior de arquivo, mas que se explicite bem o desejo de monopólio do material ANTES de fazer o registro. Das parceiras que tive, muitas não se interessam em ter cópias ou até em ver o material, mas sempre mantenho a disponibilidade. Mas achei mais válido escrever pra você, Cecí.

Por enquanto, não vou mais me preocupar em fazer B.O., ou de expor todas nossas trocas de mensagens, que era minha intenção inicial. (Nesses dias periga entrar na delegacia pra fazer denúncia e ser aconselhado a ir embora que a delegacia esta sendo metralhada pelo PCC, relato de amiga nesse final de semana). Mas fica tudo arquivado, se não posso simplesmente ter acesso e arquivo pessoal do que produzimos com tanto amor e prazer (as imagens e filmagens), vou arquivar nossa raiva, nossa desconfiança mútua nas mensagens. E aprendo que confiar demais traz esse risco, apesar de buscar pessoas que pensem próximos à minha ética libertária, é inevitável na  deriva do viver nos iludirmos e encontrarmos esses lobos em pele de cordeiro. Viver é conhecer, e Cecí, com esse meu erro de avaliação da cineasta, ao errar em ter confiado nela, é aprender. Cecí, viver é ter de relacionar com situações como essa.

            Cecília, espero que goste de ter lido essa carta, sei que ela é mais pra mim que pra você, pois ao escrever organizo minhas idéias, e meu emocionar. Reflito sobre o contexto de mediocridades que vivi, num contexto de uma sociedade medíocre que é conseqüência e causa dessas atitudes individuais. Leia também o manifesto de 2006, em que também abordo algumas situações com essa cineasta. Mas você sabe que faço Somaiê e Te&So como uma forma de ajudar as pessoas a verem essa realidade como eu a vejo, com o auxílio do anarquismo e da biologia do conhecer/amor. E essa carta é a resposta que tenho a esse roubo, que irei deixar registrado no meu viver. Transei e confiei, fui enganado e roubado. Mas isso não me impedirá de transar e confiar, mas mostra ao menos uma pessoa com quem não desejo mais me relacionar, pois no viver, estabelece uma relação de poder que não preciso aceitar, representa e esbarrou no meu viver, uma ideologia que combato veementemente, teórica e praticamente.

            Se continuo a me relacionar nessa submissão social com uma pessoa, daqui apouco acharei normal essa submissão com outras pessoas em outras áreas. Daqui a pouco acharei normal ficar-superior se me acostumar com esse ficar-inferior, e aceitarei também relações interpessoais onde a hierarquia embasa o acoplamento entre as pessoas. Me alimento dessas guerrilhas, na política do cotidiano, fazer esse texto pra você Cecília, é mostrar como papai opta em construir seu devir nas relações pessoais.  Com, essa cineasta, por exemplo, só é possível estabelecer alguma troca ou reaproximação futura, se no nível material de arquivo, houvesse uma socialização resultando em igualdade de arquivo, os dois com arquivo de tudo (quem quiser apagar, que apague a sua parte e assuma a responsabilidade e risco de ter produzido algo com alguém). Mostro a você Cecília, meu ponto de vista, pois o ponto de vista da maioria dos observadores pode ser diferente do meu. Mas, é uma radicalidade de não engolir sapo, não ser lesado na relação interpessoal. Esse texto, que bem marketologicamente começa com sexo no título, mostra somente como reajo a autoritarismos cotidianos entre as pessoas. Aqui parece que o tema é sexo, mas não, é jogo de poder. Corto relações afetivas e de amizade com pessoas que assumem posições de poder se diferenciando hierarquicamente comigo. Procuro nas relações que defino pessoais (amigos e amigas) viver uma igualdade de posições e somente taticamente viver as relações de poder no ambiente mais amplo do social.

 

Papai , Rui Takeguma em 16 de maio de 06, completando os 3.7 do viver.

Corrigido e publicado em 17 de maio de 2006. Pequenas correções em 18 de maio de 2006.

"Não acredito em Deus porque  nunca o vi.

Se ele quisesse que eu acreditasse nele,

Sem dúvida que viria falar comigo

E entraria pela minha porta dentro

Dizendo-me, Aqui estou!

(...)

Mas se Deus é as flores e as árvores

E os montes e o sol e o luar,

Então acredito nele,

Então acredito nele a toda hora,

E a minha vida é toda uma oração e uma missa,

E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores,

E os montes e o luar e o sol,

Para que lhe chamo eu Deus?

Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;

Porque, se ele se fez, para eu o ver,

Sol e lua e flores e árvores e montes,

Se ele me aparece como sendo árvores e montes

E lua e sol e flores,

É que ele quer que eu o conheça

Como árvores e montes e flores e luar e sol"

Fernando Pessoa

Projeto Site:       Duas Fotos Por Dia

Visitas:

(dia 17/5/06 - 10,  dia 18/05/2006 - 152,  site perdido, recolocado e zerado em 4/06/08)

      hoje


 

você conhece  as  produções de Rui Takeguma  ??

http://teso.vilabol.uol.com.br (produção cultural)

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